Michélle Aguilher da Costa — Psicóloga Clínica

Não é só saudade: por que morar fora dói mais do que a gente esperava

Você mudou de país. Do lado de fora, deu certo: tem endereço, tem rotina, talvez tenha trabalho e documento em dia. Só que por dentro tem uma coisa que você não sabe bem como nomear. Um cansaço que não passa com descanso. A sensação de estar sempre um pouco fora do lugar — nem daqui, nem mais completamente de lá.

E vem a autocobrança: "eu queria isso, eu lutei por isso, por que ainda me sinto assim?".

Escrevo na primeira pessoa porque é disso que converso todos os dias. Sou psicóloga clínica brasileira (CRP 06/114142) e atendo online, em português, brasileiros que vivem fora. Boa parte de quem me procura chega exatamente nesse ponto. E quase sempre com a mesma frase: "acho que é só saudade".

Raramente é só saudade.

O que é uma transição intercultural

Transição intercultural é o nome que a psicologia dá ao processo de atravessar uma mudança de cultura — migrar, se expatriar, fazer um intercâmbio longo, casar com alguém de outro país, ou voltar para o Brasil depois de anos fora.

Repare que é um processo, não um evento. A mudança de país aconteceu num dia; a transição continua acontecendo meses ou anos depois. É por isso que ela costuma pegar as pessoas de surpresa: você já se considerava "adaptado", e mesmo assim alguma coisa continua doendo.

Nesse processo, o que se mexe não é só a logística da vida. Mexe com o pertencimento (a que lugar e a que gente eu pertenço), com a identidade (quem eu sou aqui, falando outra língua, sendo lido como estrangeiro) e com a sensação de segurança.

Uma ideia que costuma mudar o rumo da conversa

Existe uma pergunta que, na minha experiência clínica, muda o rumo do atendimento de quem mudou de país. Não é "o que aconteceu depois que você migrou?", e sim: "o que essa mudança despertou em você que talvez já existisse antes?".

Essa é a hipótese central do trabalho que desenvolvo, o EMDR para Transições Interculturais (ETI): a migração raramente é, sozinha, a origem do sofrimento. Com mais frequência, ela funciona como um evento organizador — ela reativa coisas que já estavam guardadas em você, ligadas a pertencimento, identidade, valor pessoal e segurança.

Isso costuma ser um alívio para quem escuta. Porque explica a parte que não fecha a conta: por que uma vida objetivamente melhor pode vir acompanhada de uma dor que parece antiga. E dialoga com uma coisa sobre a qual já escrevi aqui — a ilusão de que mudar de endereço resolve o que dói por dentro, a chamada cura geográfica.

Sinais e temas que aparecem com frequência

No ETI, o sofrimento de quem migrou costuma se organizar em alguns grandes temas. Não é uma lista de sintomas nem um autodiagnóstico — é um mapa do que aparece na sala:

O que veio de antes

Coisas da sua história anterior à migração — família, perdas, rupturas — que a mudança de país trouxe de volta à superfície.

A decisão de migrar

O peso da escolha em si. Se foi decisão sua, de outra pessoa, ou se foi mais uma falta de opção do que uma escolha.

A ruptura

O que ficou para trás de um dia para o outro: casa, língua, rede, o cotidiano que você nem sabia que era um apoio.

O choque cultural

O desgaste diário de operar em outros códigos — jeito de falar, de trabalhar, de se relacionar. Cansa de um jeito que é difícil explicar para quem nunca atravessou.

Solidão e não pertencimento

A sensação de não ser inteiramente daqui nem inteiramente de lá. Muita gente descreve isso como o ponto mais pesado.

Luto migratório

Sim, luto — mesmo sem ninguém ter morrido. Perde-se uma versão da própria vida, e esse luto quase nunca é nomeado nem acolhido pelas pessoas em volta.

Reconstrução e futuro

O que vem depois: como construir vínculo, projeto e sentido no lugar onde você está agora.

Como isso costuma aparecer no dia a dia

Quando eu pergunto "e como isso aparece na sua semana?", as respostas se repetem em quatro lugares. Não é lista de sintomas nem autodiagnóstico — é o que eu mais escuto:

No sono e no estado de alerta. Dificuldade de "desligar", sono mais leve, despertares frequentes, ou a sensação de continuar em alerta mesmo quando, aparentemente, está tudo bem.

No humor. Irritabilidade maior, choro mais fácil, um cansaço emocional que não passa com descanso, reações que parecem desproporcionais a situações pequenas do dia.

No trabalho e na sensação de competência. Começar a duvidar da própria capacidade, se sentir menos competente no novo contexto, ter medo excessivo de errar, gastar muita energia para dar conta de tarefas que antes eram simples.

No pertencimento e na vida social. Sentir-se deslocado, evitar situações por medo de não entender o idioma ou os códigos culturais, ter dificuldade de criar vínculos — ou aquela sensação de não pertencer completamente nem ao país de origem nem ao país de acolhimento.

O que o ETI propõe, em linguagem simples

O ETI é um modelo clínico autoral que desenvolvi para organizar o atendimento de quem está numa transição intercultural. Ele é um protocolo adjunto: não muda a mecânica do EMDR, que segue exatamente o padrão consagrado. O que ele acrescenta é o jeito de escutar e de escolher por onde começar quando a pessoa carrega mais de um pertencimento.

Na prática, ele organiza o trabalho assim:

Os recursos culturalmente orientados, em linguagem simples

São adaptações que o ETI propõe para a fase de preparação do EMDR: recursos de estabilização e de fortalecimento, contextualizados à experiência de quem vive entre duas culturas.

Objeto Cultural Seguro. Evoca referências pessoais de familiaridade e continuidade, ajudando a acessar uma sensação de segurança ligada à sua própria história. Uma brasileira que mora na França pode escolher o cheiro do café coado da casa da avó, uma caneca que trouxe do Brasil, ou uma música que sempre ouviu em família — algo que funcione como símbolo de conexão com as suas raízes.

Raízes e Asas. Trabalha a continuidade da identidade e, ao mesmo tempo, amplia a capacidade de construir pertencimento no novo contexto. A pessoa reconhece que continua sendo filha, amiga e brasileira — e começa a se perceber capaz de criar uma rotina, fazer amizades e ocupar novos espaços no país onde vive agora.

Rede Global de Apoio. Ajuda a identificar e acessar mentalmente as pessoas, os lugares e os vínculos que dão suporte emocional, mesmo espalhados por cidades e países diferentes. Alguém que vive no Canadá pode perceber que o seu apoio não está só nos amigos locais: está também na irmã que mora no Brasil, no colega em Portugal, no grupo de brasileiros com quem conversa toda semana.

O que esperar de um processo

Algumas coisas eu posso dizer com honestidade desde já:

Se você se reconheceu aqui

Você não precisa chegar com tudo organizado na cabeça. Não precisa saber se é luto, se é choque cultural ou se é "coisa antiga". Essa parte a gente monta junto.

O que talvez ajude é ter um lugar onde você possa falar disso em português, com alguém que não vai precisar de tradução para entender o que é sentir saudade de um país e, ao mesmo tempo, não querer voltar. Se você nunca fez terapia online, escrevi sobre como isso funciona na prática.

Quando quiser, dá para marcar uma primeira conversa aqui pelo site, sem compromisso de continuar. Um passo de cada vez.

Perguntas frequentes

O que é transição intercultural?

É o processo psicológico de atravessar uma mudança de cultura — migração, expatriação, intercâmbio longo, casamento intercultural ou volta ao país de origem. É um processo que continua depois da mudança, e mexe com pertencimento, identidade e sensação de segurança.

O que é o ETI (EMDR para Transições Interculturais)?

É um modelo clínico autoral que organiza o atendimento de EMDR para pessoas em transição intercultural. Ele não substitui o protocolo padrão de EMDR: acrescenta um olhar intercultural para entender o caso e escolher por onde começar. É um modelo em desenvolvimento, não um protocolo oficialmente validado.

Migrar causa trauma?

A hipótese do ETI é outra: a migração raramente é, sozinha, a origem do sofrimento. Ela costuma funcionar como um evento organizador, reativando experiências anteriores ligadas a pertencimento, identidade e segurança.

Quanto tempo leva esse processo?

Cada processo é um. Não há como especificar tempo: depende da sua história, do que aparece pelo caminho e do seu ritmo. O que eu posso garantir é que você sempre sabe em que etapa está e que a preparação vem antes da parte difícil.

Dá para fazer esse trabalho online, morando fora?

Sim. O atendimento é online e em português, o que costuma importar bastante: falar da própria dor na língua em que ela foi vivida faz diferença.

Por Michélle Aguilher da Costa, psicóloga clínica · terapeuta EMDR · CRP 06/114142. Publicado em · Revisado em .

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