Michélle Aguilher da Costa — Psicóloga Clínica

Meu relacionamento é tóxico? Por que a dúvida já diz algo

Talvez você já tenha pesquisado isso antes

“Como saber se meu relacionamento é tóxico?”

Talvez tenha sido no meio de uma discussão.

Talvez depois de contar alguma coisa para uma amiga e ouvir:

“Isso não é normal.”

Talvez você tenha feito a pesquisa escondido, apagado o histórico depois e seguido o dia normalmente.

Ou talvez tenha chegado até aqui porque respondeu ao quiz e encontrou esta frase:

“O que aparece aqui é uma relação que está pesando mais do que você conta.”

Se isso aconteceu, provavelmente você já encontrou listas na internet.

“10 sinais de uma pessoa tóxica.”

“7 comportamentos de um narcisista.”

“5 sinais de que você precisa terminar.”

Você lê.

Reconhece alguns pontos.

Não reconhece outros.

Fecha a página.

E continua sem saber.

Porque talvez a pergunta que esteja tentando responder não seja exatamente:

“Essa pessoa é tóxica?”

Talvez seja:

“Tenho motivos para me sentir como estou me sentindo ou estou exagerando?”

E essa é uma pergunta muito diferente.

Antes de perguntar quem a outra pessoa é, observe quem você está se tornando nessa relação

A palavra “tóxico” se tornou uma forma rápida de tentar explicar relações muito diferentes entre si.

Mas pessoas e relacionamentos são mais complexos do que um rótulo.

Existem relações atravessando fases ruins.

Existem pessoas que se comunicam mal.

Existem vínculos com conflitos frequentes.

Existem relações incompatíveis.

Existem relações que fazem sofrer.

E existem também relações em que há humilhação, medo, controle, coerção ou violência.

Colocar tudo isso dentro da mesma palavra pode mais confundir do que ajudar.

Por isso, talvez seja mais útil começar por outro lugar:

Como você se sente e se comporta dentro dessa relação?

Você consegue discordar?

Consegue dizer que algo machucou sem passar horas preparando a maneira “correta” de falar?

Consegue dizer não?

Pode mudar de opinião?

Pode ter amigos, interesses e espaços próprios?

Pode ficar triste ou irritado sem imediatamente sentir que precisa justificar sua emoção?

Pode trazer um problema para a relação sem acabar discutindo sobre o fato de você ter trazido o problema?

Você se reconhece quando está ao lado dessa pessoa?

Ou percebe que, pouco a pouco, começou a editar partes de si para evitar determinadas reações?

Essas perguntas talvez digam mais sobre uma relação do que tentar descobrir qual rótulo dar ao outro.

Quando você passa tempo demais medindo a própria reação

Existe uma diferença entre considerar o outro e passar a viver calculando o outro.

Em qualquer relação importante fazemos ajustes.

Escolhemos palavras.

Cedemos às vezes.

Tentamos compreender perspectivas diferentes.

Isso faz parte da intimidade.

Mas algo muda quando grande parte da sua energia passa a ser usada para prever:

“Como essa pessoa vai reagir?”

Você pensa se é uma boa hora para falar.

Reformula uma mensagem várias vezes.

Evita determinado assunto.

Suaviza o que aconteceu quando conta para alguém.

Pede desculpas antes mesmo de saber se fez algo errado.

Revê mentalmente uma discussão tentando descobrir em qual momento estragou tudo.

E, aos poucos, a pergunta deixa de ser:

“O que eu penso sobre isso?”

e passa a ser:

“Qual versão do que eu penso vai causar menos problema?”

Quando isso acontece repetidamente, você pode começar a ocupar cada vez menos espaço dentro da própria relação.

Não necessariamente porque alguém lhe disse explicitamente para desaparecer.

Às vezes, você foi aprendendo a diminuir aos poucos.

O corpo também aprende como é estar com alguém

Nem tudo o que percebemos em uma relação aparece primeiro como pensamento.

Às vezes aparece no corpo.

Você ouve a chave na porta e fica tenso.

Vê uma mensagem chegar e sente o estômago apertar.

Percebe uma mudança pequena no tom de voz e imediatamente começa a tentar descobrir o que fez.

Depois de uma conversa difícil, leva horas para conseguir relaxar.

Ou sente um enorme alívio quando a pessoa viaja, sai de casa ou simplesmente fica algumas horas sem falar com você.

Isso não significa automaticamente que você esteja em um relacionamento abusivo.

Mas também não precisa ser descartado.

Nosso cérebro está constantemente aprendendo com aquilo que vivemos.

Quando determinadas situações se repetem, começamos a antecipá-las.

É assim que conseguimos dirigir sem pensar em cada movimento, reconhecer rapidamente um rosto familiar ou perceber perigo antes de conseguir explicar exatamente o que chamou nossa atenção.

Dentro dos relacionamentos também aprendemos.

Aprendemos o tom que costuma anteceder uma discussão.

O silêncio que significa alguma coisa.

O assunto que é melhor não tocar.

A expressão que indica que talvez seja necessário se preparar.

Com o tempo, algumas respostas podem ficar tão rápidas que você sente primeiro e compreende depois.

Por isso, dizer a si mesmo:

“Não deveria ficar tão nervoso com isso”

nem sempre faz o nervosismo desaparecer.

Talvez a pergunta mais útil seja:

“O que eu aprendi a esperar quando isso acontece?”

Às vezes você não está tentando entender o outro. Está tentando descobrir se pode confiar na própria percepção

Essa é uma das partes mais delicadas.

Algumas pessoas chegam à terapia sabendo que algo em sua relação não está bem.

Mas não conseguem confiar plenamente nessa percepção.

Elas dizem:

“Talvez eu esteja sendo sensível demais.”

“Ele estava estressado.”

“Ela não quis dizer daquele jeito.”

“Também não sou fácil.”

“Se eu soubesse conversar melhor, talvez isso não acontecesse.”

“Tem tanta coisa boa também.”

“Não é sempre assim.”

E todas essas coisas podem até ser verdadeiras.

Uma pessoa pode estar estressada.

Você pode cometer erros.

Uma relação difícil pode ter momentos muito bons.

Amor e sofrimento não são opostos que nunca aparecem juntos.

É justamente isso que torna algumas relações tão difíceis de compreender.

Quando tudo é ruim, reconhecer o problema pode ser mais simples.

Quando existe carinho, história, projetos, lembranças, desejo, culpa, esperança e sofrimento misturados, a pergunta se torna muito mais complicada.

“Como alguma coisa que me faz tão bem em alguns momentos consegue me fazer tão mal em outros?”

Não é uma pergunta ingênua.

É uma pergunta importante.

Por que nenhuma lista da internet consegue responder se você deve ficar ou ir embora

Listas podem ajudar a dar nome a comportamentos.

Mas não conhecem a sua história.

Não sabem há quanto tempo isso acontece.

Não sabem o que acontece depois das brigas.

Não conhecem aquilo de que você tem medo.

Não sabem quanto você já mudou para manter essa relação.

Não sabem se você ainda consegue discordar.

Não sabem se existe medo de represália.

Não sabem se há controle.

Não sabem se algo aconteceu uma vez ou se é parte de um padrão.

E, principalmente, uma lista não consegue compreender o significado que essa relação assumiu na sua vida.

Por isso, eu desconfiaria de qualquer conteúdo que, com meia dúzia de perguntas, determine:

“Seu parceiro é tóxico.”

“Você precisa terminar.”

“Seu relacionamento é saudável.”

Uma relação humana não deveria ser julgada por um algoritmo emocional de cinco itens.

Há situações que exigem nomeação muito clara, especialmente quando há violência, ameaça, coerção ou risco.

Mas há outras em que o trabalho mais importante é justamente compreender o que está acontecendo antes de transformar uma experiência complexa numa sentença.

Algumas relações antigas continuam participando das relações atuais

Também existe outro motivo pelo qual a pergunta pode ser tão difícil.

Nós não começamos cada relacionamento do zero.

Chegamos a ele carregando experiências anteriores.

Aquilo que aprendemos sobre amor.

Sobre abandono.

Sobre conflito.

Sobre confiança.

Sobre pedir.

Sobre depender.

Sobre ser cuidado.

Sobre precisar cuidar do outro.

Talvez você tenha aprendido muito cedo a observar o humor das pessoas ao redor antes de decidir como poderia agir.

Talvez tenha aprendido que amor significava tolerar.

Que bons relacionamentos exigem sacrifício.

Que terminar significa fracassar.

Que ser escolhido é tão importante que perder alguém parece insuportável.

Ou talvez você tenha vivido relações em que suas necessidades foram ignoradas e tenha aprendido que esperar pouco protege da decepção.

Isso não significa que o sofrimento atual seja “coisa do seu passado”.

Nem significa que, se você tem alguma ferida anterior, o comportamento do outro deixa de importar.

Significa apenas que a relação entre duas pessoas sempre encontra histórias que começaram antes daquele encontro.

Compreender a sua história ajuda a separar coisas importantes:

O que pertence ao presente?

O que essa relação realmente produz?

O que uma situação atual desperta de experiências anteriores?

E por que determinados vínculos parecem tão difíceis de deixar, mesmo quando já sabemos que não estamos bem?

“Mas e se o problema for eu?”

Talvez essa seja a pergunta mais dolorosa de todas.

Quem está muito envolvido numa relação pode oscilar entre duas certezas:

“A culpa é dele.”

e

“Talvez a culpa seja toda minha.”

Mas terapia não precisa funcionar como um tribunal procurando qual das duas pessoas está certa.

Relacionamentos são sistemas complexos de respostas, expectativas, feridas, escolhas, limites e responsabilidades.

Você pode ter comportamentos que precisa rever e, ainda assim, estar sendo machucado.

Pode reagir mal a algumas situações e ainda ter razão ao dizer que determinada forma de tratamento não é aceitável para você.

Pode compreender a história do outro sem precisar tolerar tudo o que essa história produz.

Entender alguém não obriga você a suportar qualquer coisa.

E reconhecer seus próprios padrões não significa assumir responsabilidade por comportamentos que pertencem ao outro.

Essa distinção é fundamental.

Uma pergunta pode ajudar mais do que “isso é tóxico?”

Experimente substituir a pergunta:

“Meu relacionamento é tóxico?”

por algumas outras:

“Como eu tenho me sentido nessa relação?”

“O que eu consigo ser aqui?”

“Tenho medo de dizer o que penso?”

“Estou constantemente tentando evitar a reação da outra pessoa?”

“Minhas necessidades têm espaço?”

“Quando algo me machuca, conseguimos conversar sobre isso?”

“Os conflitos produzem mudanças ou apenas se repetem?”

“Tenho me afastado de pessoas, atividades ou partes de mim para manter essa relação?”

“Estou ficando porque quero ou porque tenho medo do que aconteceria se eu fosse embora?”

E talvez uma das perguntas mais importantes:

“Se nada mudasse nessa relação nos próximos dois anos, eu gostaria de continuar vivendo dessa maneira?”

Você não precisa saber imediatamente o que fazer com as respostas.

Primeiro, pode simplesmente ouvi-las.

Você não precisa decidir hoje se fica ou se vai embora

Muitas pessoas adiam olhar para o relacionamento porque imaginam que, no momento em que admitirem que existe um problema, precisarão tomar uma decisão definitiva.

Não precisa ser assim.

Reconhecer que alguma coisa está lhe fazendo mal não obriga você a terminar amanhã.

Da mesma forma, amar alguém não obriga você a permanecer.

Entre perceber e decidir pode existir um espaço.

Um espaço para compreender.

Para recuperar referências.

Para perceber limites.

Para conversar.

Para observar padrões.

Para se fortalecer.

Para lembrar de quem você era antes de começar a se adaptar tanto.

Em terapia, uma das primeiras tarefas pode ser justamente criar esse espaço.

Não para alguém decidir por você.

Mas para que você consiga tomar decisões tendo um pouco mais de acesso a si mesmo.

E onde o EMDR pode entrar nisso?

Às vezes, você entende perfeitamente o que acontece na relação.

Sabe que determinada situação não deveria produzir tanto medo.

Sabe que pode dizer não.

Sabe que não precisa convencer alguém do seu valor.

Sabe que uma discussão não significa abandono.

Mas seu corpo e suas emoções parecem não acompanhar esse conhecimento.

Isso pode acontecer quando situações atuais encontram experiências anteriores que ainda carregam muita força emocional.

Uma crítica de hoje pode tocar em antigas experiências de humilhação.

Uma ameaça de término pode encontrar histórias de abandono.

O silêncio do outro pode despertar uma sensação conhecida muito antes daquela relação existir.

Quando isso acontece, não basta repetir:

“Eu sei que não deveria me sentir assim.”

Em alguns processos terapêuticos, o EMDR pode ser utilizado para trabalhar experiências que continuam sendo ativadas no presente.

O objetivo não é convencer você de que o relacionamento é bom ou ruim.

Também não é retirar sua reação para que você tolere mais.

É justamente o contrário.

Quanto menos uma decisão é governada pelo medo antigo, pela culpa ou por experiências ainda muito carregadas, mais espaço existe para perceber o que está acontecendo agora.

Há uma diferença entre conflito e medo

Nenhum relacionamento é confortável o tempo inteiro.

Pessoas que se amam discordam.

Frustram umas às outras.

Erram.

Às vezes dizem coisas das quais se arrependem.

Mas conflito não deveria significar que uma das pessoas precisa desaparecer para que a relação continue existindo.

Se há ameaças, intimidação, humilhações frequentes, controle da sua vida, isolamento de pessoas importantes, coerção sexual, controle financeiro, vigilância ou medo real das consequências de contrariar a outra pessoa, a questão deixa de ser simplesmente “será que estamos nos comunicando mal?”.

Nessas situações, é importante buscar apoio especializado e considerar sua segurança antes de tentar resolver a relação por meio de uma conversa a dois.

Você não precisa esperar que aconteça algo “pior” para levar o que está vivendo a sério.

Talvez a sua dúvida já esteja contando alguma coisa

Não porque perguntar “meu relacionamento é tóxico?” prove que ele seja.

Não prova.

Mas porque dificilmente fazemos repetidamente essa pergunta sobre uma relação na qual estamos conseguindo existir com segurança, liberdade e confiança naquilo que sentimos.

Talvez sua dúvida esteja dizendo:

“Alguma coisa aqui está me confundindo.”

Ou:

“Estou me sentindo menor.”

“Estou cansado de tentar descobrir se tenho direito de ficar chateado.”

“Não confio mais tanto naquilo que percebo.”

“Não sei se estou ficando porque quero ou porque não consigo imaginar como sair.”

Talvez você ainda não saiba o nome disso.

E não precisa saber.

Você também não precisa chegar à primeira conversa dizendo:

“Estou em um relacionamento tóxico.”

Pode chegar dizendo:

“Tem alguma coisa na minha relação que está me fazendo mal e eu não consigo entender direito.”

Isso já é suficiente.

Porque talvez a primeira pergunta não precise ser:

“Eu devo ficar ou ir embora?”

Pode ser uma pergunta anterior:

“O que está acontecendo comigo dentro dessa relação?”

E podemos começar exatamente daí.

Por Michélle Aguilher da Costa, psicóloga clínica · CRP 06/114142. Publicado em · Revisado em .

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